E quinta-feira eu fui pra praia, lombrar com o mar, e lombrei, lombrei gostoso. Por que o mar tem uma energia tão extraordinariamente louca, intensa, que chega a dar medo. Curiosidade. E fiquei de seis da tarde, até quase 10 da noite viajando no mar, nas ondas, no vento que ele gera, nas direções do vento que vai mudando, uma hora é leste, outra é nordeste, outra é noroeste, mas sempre o vento, forte, latente, pulsando vida marítima na minha face seca de Brasília. Brasília sem mar, coitada. Mas Maceió tem mar, e é lindo o mar daqui. Na verdade acho que mar é lindo em todo lugar, logo, desconsiderem o que acabei de falar. E fiquei lá jogado na areia, vendo o pai e o filho brincarem com o seu cachorro. Vi-os entrando no mar escuro, o cachorro atrás, e pensei que se talvez eu tivesse cachorro aqui em MAceió, eu também o levaria para tomar banho de mar. Mas não a noite, tenho medo do mar a noite. Água escura, maré alta, pode ter tubarão, raia, um zilhão de bichinhos que você nem sonha existir na terra, mas que no mar, podem dar um beliscão no seu dedo e arrancar sua unha fora. Sei lá, tenho medo mesmo a noite. De dia também, mas meio que ignoro o medo, e caio na água, me jogo na areia, e etc. A noite, eu só observo. E enquanto eu observo e penso no meu cachorro que tá lá em Brasília, e que nunca tomou banho nem de rio, coitado, imagina no mar, o pai, o filho e o cachorro, que era Pit Bull, nadam e brincam no mar noturno da Pajuçara.
Depois chega mais gente, e eu me sinto observado. De alguma forma sinto que alguém me olha, me observa. O que aquele cara de calça jeans, camiseta e coturno tá fazendo ali sentado na areia há horas escrevendo? Deve ser doido, ou turista. Nunca deve ter visto o mar, ai aproveita o pouco tempo que tem de uma semana de férias, pra escrever em frente ao mar. É, é isso. Concordam todos que me observam. É turista. E se vão andando pela areia, procurando não sei o quê, vindo não sei de onde.
Se vão, e quando me vejo sozinho, eu canto. Canto músicas de Iemanjah que eu conheço. Canto músicas de Oxum, músicas que falam da água, doce e salgada. Om show particular que cedi ao mar, como forma de agradecimento ao belíssimo espetáculo que ele vem me mostrado ultimamente. E no meio da música “É doce morrer no mar”, que é uma das músicas que eu mais gosto de cantar quando estou dentro do mar, o mar veio em minha direção, maré alta, e molhou-me todo. Cai em mim. Um susto. Por que o mar vem assim de repente na nossa direção?
Acho que foi uma forma de aplaudir o meu canto, a minha homenagem. E molhou-me. Pingou água até no meu rosto, e na minha boca. E eu lambi a água que caiu na boca, e senti o sal. E continuei cantando, que é doce, morrer no mar, nas ondas verdes do mar.
Mas é doce? É sal? Não sei, nem queria saber naquela hora. Levantei, andei até o estacionamento, atravessei a rua, pingando água salgada, e fui pra casa.
E a pergunta continua. É doce? É sal?


