Posts de Outubro, 2008

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Uma outra observação

Outubro 15, 2008

Depois de aspirar e viajar com o tinner das crianças da rodoviária, lembrei de um episódio em que eu assistia um show do Jah Live na Torre de TV, e fumando um baseado, curtindo o som dos caras, percebi umas dez crianças completamente extasiadas pelo som, encostadas nas caixas de som, olhando pro placo, com suas garrafinhas de água na mão. Dentro da garrafa, tinner. Eu e o baseado. Elas e o tinner. Jah Live.

Qual teria sido a percepção delas de mim, se tivessem me visto diferente de todos, no meio da multidão?

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As crianças e o tinner

Outubro 15, 2008

Ontem a noite a Marcela(linda) me deixou na rodoviária, e eu fiquei mais ou menos 45 minutos esperando o próximo ônibus pro Gama. Eram 23 horas e alguns minutos. Nesse meio termo, andei pela rodoviária, e pude observar as crianças que vivem ali se desentocando. Na verdade elas estiveram ali o dia inteiro, mas foi mais fácil percebê-las quando a rodoviária se desintoxicou da profusão gigante de pessoas que passam ali diariamente. A rodoviária estava quase vazia, e aqui e ali, eu as vi, saindo de suas tocas. Deitadas no chão, encostadas nas paredes, andando vendendo chicletes e paçocas, assediando as poucas pessoas que ainda por ali transitavam atrás de um “real seu moço, pelo-amor-de-Deus. Inúmeras crianças, sozinhas, mas em comunhão com o solvente de tinta. Todas eram uma só criança, com sua latinha, sua garrafinha na mão, e o líquido transparente dentro, a qual puxavam somente o ar de dentro delas para os pulmões, em seguida fazendo cara de alguém perdido no mundo. Como se algo em suas faces dissesse: “Espere um pouco, estou viajando. Volto já”. E observei primeiramente, durante esses poucos minutos, uma criança em especial. Ele estava encostado na parede da Pastelaria Viçosa, com os pés meio jogados sem rumo para frente, os olhos fixos num ponto qualquer, e seguro na garrafa de água mineral como se aquela fosse realmente sua única fonte de vida. Tinner! O tinner é a droga oficial da rodoviária de Brasília. Até os dois garotos que vendiam paçoca, ao conseguir algum trocado vendendo “5 paçoca é 1 real. Duas é 50. Uma é 25″, correram para o garoto maior, para calibrarem suas garrafinhas com um pouco do líquido solvente, que a tantos perdia e a tantos encontrava. Esse garoto maior era meio que o traficante local, e fiquei admirado como ele colocava pouco tinner dentro das garrafinhas. Os dois que vendiam paçoca protestavam, choravam por um pouco mais, mas com ele não tinha negócio, era aquilo e pronto. A contragosto, os dois da paçoca correram e sentaram ao lado do outro encostado na Viçosa, e aspiraram aquilo como se bebe água em dias de sede. Tinner. Uma menina maior chega perto do trio-viçosa, e com sua lata de Skol na mão, senta-se também ao lado deles. Ali era o canto da viagem. O canto da fuga. O canto onde eles se reuniam, e se reunem diariamente para esquecer da fome, do desprezo de todos que passavam apressados por eles, como lixo jogados no chão. O canto da saciedade. Ali eu percebi não haver dor alguma. Somente um ponto qualquer, à frente, onde todos eles fixavam o olhar. Que ponto seria aquele? Por que todos olhavam na mesma direção, meio sem piscar, meio maravilhados com o que viam, meio que pedindo ajuda a alguém.  Entrei no ônibus, enfim, mas lá de dentro o cheiro forte de tinner ainda estava impregnado na minha pele, no meu nariz de forma intensa. Impossível me livrar daquilo. Aqueles olhares fixos num ponto qualquer, à frente, de forma incompreensível, agora, olhavam para mim.